por Niela Bittencourt
O início de um novo ano costuma vir acompanhado de promessas, listas de objetivos e expectativas de mudança. Mas até que ponto estabelecer metas é saudável? E quando isso pode se transformar em um gatilho para a ansiedade? Para o psicólogo Marcelo Motta, o planejamento é uma ferramenta importante de saúde mental, desde que seja usado com equilíbrio e sem cobranças excessivas.
O profissional comenta que a prática de estabelecer metas faz parte da sua rotina profissional e pessoal. No consultório, especialmente no mês de dezembro, ele costuma trabalhar esse exercício com os pacientes e também leva a proposta para amigos, pessoas próximas e até para conteúdos que produz na internet. “Eu considero importante a gente estabelecer metas, objetivos, desejos. Fazer listinha: pegar uma folha e pontuar coisas que se quer no âmbito pessoal, profissional, no âmbito financeiro, amoroso, nas relações”, opina. Para ele, esse exercício ajuda a dar forma ao que antes era apenas um pensamento abstrato.
Segundo o psicólogo, quando as metas são visualizadas, elas passam a ganhar concretude. “Quando a gente vê as metas, consegue começar a torná-las reais. Começa a visualizar o que pode ser feito”, sustenta. Ele exemplifica com situações comuns, como o desejo de emagrecer ou mudar hábitos. “Se eu digo ‘em 2026 eu quero emagrecer’, ao visualizar isso eu começo a pensar: o que eu preciso fazer? Mudar a alimentação, procurar um nutricionista, iniciar uma atividade física que eu goste. A meta me ajuda a organizar os passos”, detalha.
O mesmo raciocínio vale para mudanças de comportamento pessoal ou profissional. Para Motta, escrever metas não é apenas desejar, mas criar perspectiva. “Visualizando, pontuo o que eu posso fazer para melhorar; então é importante fazer metas, escrever, para criar perspectivas”, ressalta. No entanto, ele alerta que o planejamento precisa caminhar junto com o equilíbrio emocional. A ansiedade, sustenta, entra quando a pessoa transforma a meta em obrigação rígida, quando acredita que tudo precisa ser realizado em um determinado prazo ou rapidamente.
De acordo com o psicólogo, metas devem funcionar como um norte, não como um peso. “Elas não podem ser o caminho todo”, lembra, ao enfatizar que os objetivos são uma direção; e que, assim como em outras áreas da vida, é preciso cautela. Contudo, lembra que, para pessoas que convivem com transtornos de ansiedade ou outras psicopatologias, esse processo deve ser trabalhado dentro da terapia, respeitando os limites individuais.
Exercício, descanso e lazer
Outro ponto central abordado por Motta é a importância da rotina para a saúde mental. Segundo ele, criar uma rotina é algo extremamente saudável e, nos dias de hoje, cada vez mais necessário. “Ter rotina é extremamente saudável. Mas qual é a rotina certa? Pode ser uma para um, outra para outro, para o Joãozinho pode ser outra. Cada um – dentro da sua vida, do seu trabalho, das suas atividades, dos seus afazeres, dos seus hobbies – vai criar uma rotina”, explica.
O psicólogo lembra que há quem consiga acordar muito cedo e dormir cedo, enquanto outras pessoas funcionam melhor em horários diferentes. “Tem gente que vai praticar exercício no horário do meio-dia, outros no horário da noite. O importante é eu criar uma rotina que englobe tudo (trabalho, afazeres, exercícios, lazer e descanso)”, pontua. Ele reforça que, especialmente para quem estuda para concursos ou exames como o Enem, é fundamental que a rotina inclua não apenas estudo, mas também atividade física, descanso e lazer.
Motta destaca, ainda, que qualquer especialista em saúde mental vai defender esses pilares. Ou seja, que dentro de qualquer rotina saudável tem que existir tempo de descanso, tempo de lazer e atividade física. “Isso é saúde mental”, afirma. Ele lembra que estudos e dados de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, reforçam sobretudo a importância da atividade física como parte do cuidado integral com a saúde, tanto física quanto emocional.
Para quem tem dificuldade em organizar o dia a dia, a orientação é começar observando a própria realidade. “Pega um papel e escreve o que faz no dia. Como é que está a tua rotina hoje, desde a hora que acorda até a hora que vai dormir”, detalha. Depois, orienta, é olhar para isso e pensar: “O que eu posso melhorar? O que eu não gosto? O que eu quero mudar ou incluir?”. Segundo ele, esse exercício ajuda a tornar visível aquilo que muitas vezes passa despercebido na correria diária.
Mas o psicólogo reconhece que nem todas as pessoas têm a mesma condição de tempo e organização. “Existem pessoas com rotinas muito pesadas, que saem de casa cedo, pegam transporte público, trabalham o dia inteiro e voltam tarde da noite. Essas pessoas realmente enfrentam uma realidade difícil”, observa. Ainda assim, ele reforça que, dentro do possível, é fundamental buscar algum espaço para descanso e autocuidado.
Para o profissional, existe um equívoco comum de associar rotina a uma vida chata ou engessada. “Eu penso exatamente o contrário. Depois que coloquei rotina na minha vida, ela ficou muito mais saudável, porque eu sei o que esperar”, afirma. Ele explica que rotina não significa fazer todos os dias a mesma coisa, mas organizar a vida para que haja espaço para o que é importante. “A minha rotina, por exemplo, é diferente a cada dia da semana. Não é todos os dias fazer a mesma coisa no mesmo horário; é eu organizar a minha vida para eu saber o que eu preciso fazer. É organizar a vida para ter tempo para as coisas que são importantes”, finaliza.