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Psicóloga defende importância de abordar o suicídio de forma séria

Foto: Reprodução FS

Os temas depressão e suicídio são recorrentes nas redes sociais, mas, sobretudo o segundo, ainda é considerado um tabu. O debate sobre a saúde mental, porém, é urgente. Estima-se que uma em cada cinco pessoas, ou seja, 20% da humanidade, enfrentará a depressão em algum momento da vida. Nos últimos anos, porém, chama atenção o número de suicídios entre os jovens: basta parar e pensar que muitos casos, inclusive, recentes, devem vir à mente do leitor. A reportagem conversou sobre o tema com a psicóloga Dilce Helena Alves Aguzzi.

Questionada sobre a importância de tratar sobre o tema, Dilce pontuou que os casos de suicídio causam enorme comoção e impossibilidade de aceitação/compreensão devido ao fato de ser um fenômeno que vai na contramão de um princípio básico dos seres vivos, que é o senso de autopreservação. "É importante falar sobre o tema sempre com o caráter da prevenção, do alerta aos sinais, de como lidar com pessoas com indicadores de desesperança e também alertar para a importância da pósvenção, ou seja, a atenção aos familiares e amigos afetados pelo trauma da perda", sustentou. A profissional, porém, acrescentou que isso não é fácil (abordar o tema). "Exige muita responsabilidade e respeito aos sentimentos de intensidade que atingem diretamente uma gama enorme de pessoas", explicou.

Apesar de não ser um tipo de morte noticiado, hoje, com as redes sociais, os casos sempre são amplamente comentados. É possível ter acesso a muitas postagens que discorrem sobre o assunto, sobretudo diante de um caso. A profissional contextualizou que a decisão de não noticiar suicídios vem da possibilidade de o desfecho encontrado por determinada pessoa para seu sofrimento pessoal poder servir de inspiração ou motivador para outra que se encontra vulnerável emocionalmente. "E que se identifique com a situação: e isso pode ocorrer por inúmeros motivos, mas principalmente por desesperança", elucidou.

"Em virtude disso, a notícia passa a ser vista com cautela e bastante discrição e privacidade", acrescentou. Porém, para ela, independente disso, as campanhas de prevenção ao suicídio devem ser amplamente e constantemente difundidas. "O Setembro Amarelo vem ganhando grande notoriedade, entretanto essa campanha ocorre diariamente ao logo de todo o ano. Falando sobre o tema, divulgando dados, esclarecendo pontos e, principalmente, destacando que é possível superar uma crise de desesperança com diálogo e tratamento apropriado do sofrimento pelo qual essa pessoa vem passando", pontuou.

Para Dilce, quando o assunto vem à tona, é preciso abordar sobre a importância da prevenção e não apostar na especulação, que é sempre um desserviço, um desrespeito. "O que se pode fazer é lutar pela prevenção e, por este motivo, é importante falar sobre o tema sim, sempre, porém sem especulações sobre casos específicos e com respeito a integridade emocional de todas as pessoas envolvidas. Não se deve ficar procurando motivos. Deve-se trabalhar em prol da prevenção e do auxílio emocional especializado às vítimas do trauma", argumentou.


Nem sempre há sinais

A reportagem também comentou com a profissional que, por vezes, é possível ler (também nas redes sociais) relatos de amigos das vítimas, que, mesmo com a proximidade, não imaginavam que aquelas pessoas poderiam tirar a própria vida. E questionou: Elas dão sinais? Quais são os principais? "Nem sempre há sinais evidentes, o que é um dado bastante alarmante e chocante. Entretanto, a maioria dos casos evidencia mudanças de comportamento, discurso com teor de desesperança, rituais de despedida ou desapego, isolamento social, dificuldade em lidar com os sentimentos de frustração ou constrangimento por situações difíceis da vida", mencionou.

Apesar de estes serem os principais sinais, existem inúmeros outros, segundo ressalvou a psicóloga. "O ser humano é singular e as reações de cada pessoa não são simples de se prever. Por isso é preponderante a identificação da situação de crise e quais profissionais procurar, endereços, telefones. O Centro de Valorização da Vida é de uma relevância e eficácia incríveis nesta escuta emergencial. O CVV é fácil de ser contatado através de ligação para o número 188 e não é necessária a identificação para ser atendido", destacou. "A rede Caps, Centro de Atenção Psicossocial, também está apta para acolher esta demanda", informou

Mas, afinal, uma pessoa que pensa em suicídio costuma pedir ajuda profissional? Dilce comentou que há pesquisas que apontam que, na maioria dos casos de suicídio notificados, as vítimas procuraram por algum tipo de ajuda profissional na área da Saúde pelo menos um ano antes. "Este dado nos remete a importância da preparação dos profissionais da área de saúde para saber identificar e lidar com emergências em saúde mental", sustentou. "Sabemos que a pessoa em profunda crise emocional, muitas vezes, dispõe de pouquíssima energia e necessita reunir todas as forças que possui para tentar superar o constrangimento e o medo para procurar ajuda. Se encontrar um profissional despreparado, o socorro vai acabar tardando a chegar, e algumas vezes chega tarde demais", acentuou.

É esse, para a profissional, o principal alvo das campanhas: preparar a sociedade para lidar com o tema, saber encaminhar, e capacitar as equipes para acolher corretamente essa demanda. "O trabalho para mudar o pensamento a que chamamos ideação suicida se inicia com a escuta respeitosa e sem julgamento, com a permissão para a crise, com a acolhida em espaço adequado e sigiloso por profissionais treinados e estudados para tal", argumentou. "E socialmente essa mudança se dá através da conscientização por um mundo menos crítico e intolerante, que aceite mais as diferenças e vulnerabilidades humanas. Não somos perfeitos e podemos sobreviver as frustrações alheias e nossas próprias", enfatizou.

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