Mario Garcia mantém viva a tradição dos quadrinhos

Muito antes das telas e das redes sociais, já eram os quadrinhos que ensinavam gerações inteiras a imaginar — quadro a quadro, balão a balão. Celebrado em 30 de janeiro, o Dia do Quadrinho Nacional resgata essa trajetória iniciada em 1869 com As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini, obra considerada a primeira HQ brasileira. De lá para cá, o país transformou a linguagem em identidade: personagens, cenários e narrativas passaram a refletir o cotidiano, os conflitos e os sonhos de diferentes regiões do Brasil, consolidando uma produção reconhecida muito além das páginas impressas.

 

Apesar de ainda enfrentarem o estigma de “leitura menor”, os quadrinhos seguem sendo porta de entrada para o universo literário, despertando curiosidade, interpretação e senso crítico em leitores de todas as idades. E, entre os artistas que mantêm viva a tradição das histórias em quadrinhos longe dos grandes centros, está o bageense Mario Garcia. 

 

Para ele, a relação com a linguagem começou cedo e ajudou a definir não apenas a carreira, mas também a forma de perceber o mundo. “Os quadrinhos foram meu primeiro contato com a literatura e com a leitura do mundo. Desde cedo, desenhar e narrar caminharam juntos, recriando personagens que eu via em cartoons e animes e imaginando histórias próprias”, relata.

 

Confira a entrevista completa!

Relação com a linguagem começou cedo

 

Folha do Sul – O quanto o quadrinho te moldou como artista?

 

Mario Garcia – Os quadrinhos foram meu primeiro contato com a literatura e com a leitura do mundo. Desde cedo, desenhar e narrar caminharam juntos, recriando personagens que eu via em cartoons e animes e imaginando histórias próprias. Referências como o Homem-Aranha foram fundamentais por apresentarem personagens atravessados por conflitos cotidianos, falhas e responsabilidades, o que moldou meu interesse por figuras mais humanas e contraditórias. 

 

Após, o contato com o mangá, especialmente Naruto, ampliou minha compreensão de narrativa visual, ritmo e construção emocional, me moldando como artista que busca fazer da narrativa, do personagem e do conflito os eixos centrais no meu trabalho, entendendo o desenho não apenas como imagem, mas como linguagem, forma de pensamento e expressão.

 

Folha do Sul – O que, nesta arte, mais te atraiu e atrai? 

 

Mario Garcia – O que eu sempre achei interessante nos quadrinhos é a capacidade de contar uma história a partir da visão de mundo particular de uma pessoa. A liberdade que o quadrinista tem faz com que sua subjetividade apareça de forma muito clara, seja nas referências, nas escolhas narrativas, no traço ou no ritmo da obra. 

 

Além disso, vejo que os quadrinhos demonstram uma enorme potência para tratar de temas fortes, políticos e sociais, como preconceito, segregação, traumas infantis e a própria psique humana, algo que os coloca em diálogo direto com outras mídias narrativas, mas com uma força muito própria. Nesse sentido, o background do artista, suas vivências e também seu posicionamento enquanto sujeito político atravessam inevitavelmente a obra, tornando cada narrativa única.

 

Folha do Sul – Por que o quadrinho, na tua opinião, é uma ótima forma de incentivar os jovens a se tornarem leitores? 

 

Mario Garcia – Eu particularmente acredito que os quadrinhos sejam uma forma divertida e acessível de incentivar novos leitores, além de romper com a visão elitista e hegemônica do que é literatura. A leitura de obras clássicas e do cânone, através de livros, é importante, sim, porém, não vejo sentido em exigir que alguém comece por leituras extremamente complexas, nem culpabilizar quem não tem o hábito da leitura desenvolvido. 

 

Muitas vezes, essa chamada “falta de interesse” está ligada a fatores estruturais e socioeconômicos, e os quadrinhos funcionam como uma ponte poderosa e, em muitos casos, como uma alternativa legítima de formação leitora para jovens.

 

Folha do Sul – Quais são os teus trabalhos nesse estilo? Do que falam e como o pessoal pode conferir/acompanhar?

 

Mario Garcia – Atualmente venho publicando um mangá intitulado “O Andarilho” na revista Lambari, uma iniciativa dos mestres Marsal Alves Branco e Carlo Andrei Rossal. A história acompanha um “negro samurai” que percorre um mundo distópico, resgatando parcelas da população humana de estranhos campos de concentração comandados pelos chamados “Generais do Morte”. O como e o porquê dessas ações fazem parte do mistério da narrativa, que pode ser acompanhada pelas edições da revista Lambari ou pela plataforma Fliptru.

 

Folha do Sul – Há muito dos quadrinhos em outros trabalhos teus que não necessariamente são histórias em quadrinhos?

 

Mario Garcia – Com certeza. O pensamento lúdico, herdado das histórias em quadrinhos é um aspecto muito forte do meu ser, que influencia diretamente a forma como organizo ideias, construo apresentações e me comunico, tanto na posição de estudante, quanto na de professor. Esse modo de pensar narrativamente e visualmente também impacta a maneira como me relaciono com o mundo, buscando sempre partir da imaginação, do símbolo e da experiência como ferramentas de compreensão e diálogo.