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João Eichbaum

Jurisprudência da Lei do Talião

Como no 'santo ofício', os suspeitos eram torturados, antes de tudo, pelo próprio medo.

Ele era um terror. Muita gente que, por possuir duas bolas, se achava macho seria capaz de melar as cuecas só de pensar em abrir os olhos remelentos de manhã e dar com ele ao pé da cama. Ou, na melhor das hipóteses, ser despertado pela campainha e, ainda de pijama, abrir a porta e deparar com aquela figura de estátua caminhante, brandindo o papel assinado pelo juiz.

Sim, o Newton Hidenori Ishii parecia uma estátua que caminhava. Duro, impassível, os olhinhos puxados escondidos atrás dos óculos escuros, recebia, sem qualquer sinal de emoção, os flashs e os holofotes da imprensa. Ela o havia plasmado com o apelido de "Japonês da Federal", uma espécie de Torquemada da Inquisição da Santa Igreja. Ninguém o conhecia pelo nome de Newton, um mortal qualquer.

Mas, ele era apenas um executor das ordens daquele juízo, chamado Lavo-Jato, que atuava como se fosse inspirado na Santa Inquisição. Como no "santo ofício", os suspeitos eram torturados, antes de tudo, pelo próprio medo. Vá que os enfiassem numa cela, onde os esperava, silencioso e sorridente, um daqueles grandalhões tatuados, de peitos peludos, que não viam mulher há mais de dois anos. Só em pensar nisso, o cara já ficava disposto a confessar até o que não tinha feito.

Mas, se o cara, por sorte, mantivesse as preguinhas ainda íntegras, ele até conseguia tomar um pouco de coragem e não abria o bico. Mas aí o tempo passava e dava a impressão de que o tinham esquecido na cadeia. Quer dizer: matavam-no no cansaço. Então, ciente de que, se contasse o que sabia sobre as ladroagens que grassavam no país, teria a pena diminuída e poderia ser solto, vomitava as verdades e outras circunstâncias.

Ver políticos e diretores de estatais desfilando ao lado do Japonês da Federal, num corredor formado por jornalistas e suas máquinas de fazer história, era uma alegria sem nome e uma felicidade orgástica para o povo. E a cada espetáculo desses, subia a fama, com odor de devoção, de Sérgio Moro, o juiz da Lava-Jato. E foi a tal ponto, que ninguém punha em dúvida sua condição de herói e salvador da pátria. A condenação do Lula, então, levou ao ápice tamanhas honrarias.

Mas o ego, quando inchado de vaidade como ventre de sapo, sempre foi mal conselheiro. Ao trocar a magistratura pela política, Moro ajudou o destino a mudar sua história. Sua unanimidade começou a encolher; sua aura de herói desbotou. Então os inimigos se aproveitaram de seu flanco aberto. Carcomida pela dúvida, a Lava-Jato passou a sobreviver como um desenganado. E verdades de baralho passaram a valer como lei, por obra de criminosos, bisbilhoteiros de destinos alheios.

Semana passada, três ministros do STF, com discurso semelhante à jurisprudência popular inspirada na Lei de Talião, "quem com ferro fere, com ferro será ferido", despojaram Sérgio Moro das insígnias de herói. E da Lava-Jato só restou, como lembrança de um sonho, o "Japonês da Federal".


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